Por Antonio Soler, 30/04/2017

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Classe trabalhadora entra em cena e pode derrotar ofensiva reacionária

Para aqueles que acreditavam que a classe trabalhadora no Brasil tinha sofrido uma derrota histórica com o impeachment, e que por isso não seria capaz de reagir massivamente às contrarreformas de Temer, a Greve Geral de 28 de Abril foi uma demonstração cabal de uma perspectiva totalmente distinta.

Paralisações, bloqueios de rodovias e atos massivos tomam conta do país

As cidades amanheceram desérticas, clima esse apenas contrastado com a ação de vários grupos de ativistas que queimavam pneus e bloqueavam avenidas e rodovias. Em praticamente todas capitais do país a adesão à Greve Geral foi massiva, com paralisação de operários das fábricas, metroviários, condutores, ferroviários, funcionários públicos, professores e médicos e enfermeiros. Participaram da paralisação nacional e dos atos contra as “reformas” de Temer nas capitais e polos industriais mais de 50 milhões de pessoas segundo as centrais sindicais.1

No Estado de São Paulo a adesão foi total entre metroviários (paralisaram totalmente as linhas públicas do Metrô mesmo sob liminar contrária da justiça) e condutores, entre os metalúrgicos, petroleiros, bancários, funcionários públicos e professores de todas redes – inclusive da rede privada – a paralisação também foi significativa. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, houve interrupção de avenidas e rodovias pela ação de manifestantes em mais de 50 locais.

Além disso, vários atos ocorreram nas cidades do interior e no litoral. Na capital paulista foram organizados três atos (erro estratégico), o mais importante ocorreu no Largo da Batata, região oeste da capital, que reuniu cerca de 70 mil pessoas que em passeata se dirigiram em passeata até a casa de Temer para finalizar o protesto.

Dado significativo dessa greve foi a adesão da classe operária que depois de décadas sem participar de uma greve geral realiza uma poderosa mobilização. No ABC Paulista houve paralisação em seis montadoras e em várias autopeças, o que totalizou cerca de 60 mil trabalhadores metalúrgicos. Em outras regiões do Estado, tais como Osasco, Taboão da Serra, Mogi das Cruzes, Taubaté,

Campinas, Araraquara e Cubatão, a greve também teve grande adesão. No entanto, a paralisação também atingiu outros cordões industriais do pais, tais como em Curitiba (PR), Volta Redonda (RJ), Belo Horizonte (MG), Camaçari e Manaus.

Podemos derrotar Temer e suas contrarreformas

A força dessa Greve Geral é incontestável. A narrativa governamental de que a greve foi abaixo das expectativas não se sustentam nos dados, na percepção geral sobre o que ocorreu nesse 28 de abril e nem na própria movimentação do governo, que se vê obrigado a adiar a votação da “reforma” da previdência, pois na conjuntura mais favorável que se abre para os trabalhadores levar a “reforma” da previdência à votação é perigoso.

Diante de ataques brutais que acabam com direitos conquistados desde o século passado, que podem significar para muitos o fim do direito à aposentadoria (“reforma” da previdência) e dos direitos trabalhistas básicos (“reforma” trabalhista), a classe trabalhadora finalmente se levantou como classe contra estes ataques históricos, isso depois de não ter participado enquanto classe de acontecimentos políticos transcendentais, como Junho de 2013 ou da polarização política que precedeu o impeachment de Dilma.

Isso porque a narrativa governamental de que “não há alternativa” para a recuperação da economia, do emprego e das contas públicas se não pelas “reformas”, foi totalmente dinamitada quando a propaganda critica chegou as massas. A partir do momento em se furou o bloqueio ideológico, governo, classe dominante e grande mídia perdem as batalhas teóricas e começam a sofrer baixas políticas significativas. Como exemplos temos a baixíssima adesão que passam a ter os atos chamados pelos movimentos de direita, organizados pelo MBL e congêneres, pela ruptura de partidos com a base aliada e com a redução do número de votos para a reforma trabalhista na Câmara dos Deputados.

Obviamente que não basta vencer a batalha ideológica/teórica para derrotar o governo, pois ainda está em jogo a batalha política e, apesar da base do governo do Congresso Nacional começar a se esfacelar, Temer ainda dispõe da unidade da classe dominante, dos meios políticos e do controle do aparato repressivo para impor as suas contrarreformas.

Sem Unidade de Ação não se pode vence Temer, sem Frente de Esquerda não se pode derrotar a burocracia

Essa foi a Greve Geral mais importante desde a Greve Geral de 14 e 15 de março do ano de 1989, essa foi uma mobilização que demonstrou ser possível derrotar Temer e de suas contrarreformas. No entanto, apesar de ter sido um poderoso movimento, a correlação de forças conjuntural ainda não se alterou totalmente, a balança ainda pende de maneira favorável ao governo e iremos precisar de outros movimentos, atos e greves gerais para dividir a burguesia, assumir totalmente o protagonismo, derrotar o governo e suas contrarreformas.

Essa greve que paralisou mais de 50 milhões de trabalhadores demonstrou três questões que consideramos fundamentais. Em primeiro lugar que a classe trabalhadora atingiu um nível de indignação diante do governo tal que permitiria uma greve ainda mais ativa se as direções tivessem dado outra política, ou seja, se as grandes centrais tivessem organizados ações de massa ao invés de dar uma linha de “fique em casa”, como fez a CUT São Paulo.

Em segundo, demonstrou de forma contraditória, pois a deposição de Dilma foi uma profunda derrota política para o lulismo, que após a ofensiva reacionária, o impeachment e o início das contrarreformas, há grande recuperação do poder da burocracia cutista e não-cutista sobre a organização dos trabalhadores. Isso é um grande problema porque essa mesma burocracia não quer derrotar o governo nas ruas, mas sim preparar as condições para eleger Lula ou outro candidato seu em 2018.

Em terceiro lugar que é mais do que necessário desenvolver uma política que combine a máxima unidade de ação para derrotar as reformas com uma política de frente de esquerda para enfrentar a burocracia, para lutar por mobilizações e greves cada vez mais ativas e aproveitar esse momento para apresentar um projeto político e eleitoral alternativo ao do lulismo. Por isso, a política dada pela CSP-Conlutas (dirigida pelo PSTU) em São Paulo de não realizar um ato unificado com a Frente Povo sem Medo foi totalmente desastrosa, pois desconsidera esses elementos fundamentais e acaba fazendo o jogo da burocracia.

Por outro lado, é fato que a primeira tarefa é derrotar as contrarreformas do governo nas ruas. Mas, é um erro crasso e um dado do profundo sindicalismo arraigado em muitos setores da esquerda, que a esquerda socialista ainda não disponha de um nome alternativo ao de Lula para 2018. Visto que é necessário mais do que nunca combinar a luta direta contra o governo com a apresentação de uma alternativa política dos trabalhadores para uma crise que tende a se aprofundar nos próximos meses.

Também é imprescindível apresentar uma política de conjunto alternativa à da burocracia cutista que quer apenas derrotar parcialmente o governo e eleger Lula em 2018. A realidade demanda cada vez mais um sistema de consignas que parte do mais imediato, que é a luta contra os direitos dos trabalhadores, e vá até a necessidade de apresentar uma alternativa política que esteja de acordo com o nível de mobilização e consciência dos trabalhadores. Pensamos assim que esse sistema tem que ser construído em torno dos seguintes eixos: Derrotar as Contrarreformas, ampliar a luta pelo Fora Temer, exigir Eleições Gerais já e uma Assembleia Constituinte Democrática e Soberana imposta pela luta desde baixo.

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