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Por que não festejo e me faz mal o Natal
Por Mário Maestri
[1]
Enviado por el autor, 24/12/06
Não festejo e me faz mal o natal por diversas razões, algumas fracas,
outras mais fortes. Primeiro, sou ateu praticante e, sobretudo, adulto.
Portanto, não participo da solução fácil e infantil de responsabilizar
entidade superior, o tal de "pai eterno", pelos desastres
espirituais e materiais de cuja produção e, sobretudo, necessária
reparação, nós mesmos, humanos, somos responsáveis.
Sobretudo como historiador, não vejo como celebrar o natalício de
personagem sobre o qual quase não temos informação positiva e não
sabemos nada sobre a data, local e condições de nascimento. Personagem
que, confesso, não me é simpático, mesmo na narrativa mítico–religiosa,
pois amarelou na hora de liderar seu povo, mandando–o pagar o exigido
pelo invasor romano: "Dai a deus o que é de deus, dai a César, o
que é de César"!
O Natal me faz mal por constituir promoção mercadológica escandalosa que
invade crescentemente o mundo exigindo que, sob a pena da imediata sanção
moral e afetiva, a população, seja qual for o credo, caso o tenha,
presenteie familiares, amigos, superiores e subalternos, para o gáudio do
comércio e tristeza de suas finanças, numa redução miserável do valor
do sentimento ao custo do presente.
Não festejo e me desgosta o Natal por ser momento de ritual mecânico de
hipócrita fraternidade que, em vez de fortalecer a solidariedade
agonizante em cada um de nós, reforça a pretensão da redenção e do
poder do indivíduo, maldição mitológica do liberalismo, simbolizada na
excelência do aniversariante, exclusivo e único demiurgo dos males
sociais e espirituais da humanidade.
Desgosta–me o caráter anti–social e exclusivista de celebração que reúne
egoísta apenas os membros da família restrita, mesmo os que não se freqüentaram
e se suportaram durante o ano vencido, e não o farão, no ano vindouro.
Festa que acolhe somente os estrangeiros incorporados por vínculos
matrimoniais ao grupo familiar excelente, expulsos da cerimônia apenas
ousam romper aqueles liames.
Horroriza–me o sentimento de falsa e melosa fraternidade geral, com que a
grande mídia nos intoxica com impudícia crescente, ano após ano, quando
a celebração aproxima–se, no contexto da contraditória santificação
social do egoísmo e do individualismo, ao igual dos armistícios
natalinos das grandes guerras que reforçavam, e ainda reforçam – vide
o peru de Bush, no Iraque – o consenso sobre a bondade dos valores que
justificavam o massacre de cada dia, interrompendo–o por uma noite
apenas.
Não festejo o Natal porque, desde criança, como creio para muitíssimos de
nós, a festa, não sei muito bem por que, constituía um momento de tensão
e angústia, talvez por prometer sentimentos de paz e fraternidade há
muito perdidos, substituindo–os pela comilança indigesta e a abertura sôfrega
de presentes, ciumentamente cotejados com os cantos dos olhos aos dos
outros presenteados.
Por tudo isso, celebro, sim, o Primeiro do Ano, festa plebéia, aberta a
todos, sem discursos melosos, celebrada na praça e na rua, no virar da
noite, ao pipocar dos fogos lançados contra os céus. Celebro o Primeiro
do Ano, tradição pagã, sem religião e cor, quando os extrovertidos
abraçam os mais próximos e os introvertidos levantam tímidos a taça
aos estranhos, despedindo–se com esperança de um ano mais ou menos
pesado, mais ou menos frutífero, mais ou menos sofrido, na certeza
renovada de que, enquanto houver vida e luta, haverá esperança.
[1].-
Mario Maestri es un historiador brasileño especializado en el tema de
la esclavitud. (Nota SoB).
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