|
Lobbies
e desinformação dominam discussão sobre
biocombustíveis
Escrito
por Valéria Nader
Corrieo da
Cidadania, 06/12/07
Na
esteira de uma crise ambiental planetária que se alarga e
se evidencia a cada dia, chamando a atenção de muitos que
até então viam nas advertências de cientistas nada mais
do que mero alarmismo, os biocombustíveis tornaram-se um
dos grandes focos de discussão.
Para
uns, trata-se de excelente solução para a poluição do
planeta, na medida em que constituem uma fonte de energia
limpa, evitando a eliminação dos gases de efeito estufa
advindos da queima dos combustíveis fósseis. No Brasil,
então, não haveria como não adotá-los, vistas as enormes
extensões de terra passíveis de serem cultivadas com a
cana-de-açúcar e as louváveis condições naturais para
esse cultivo.
Do outro
lado, críticas contundentes. Minoram-se os ganhos energéticos,
que deveriam ser relativizados pelas condições sob as
quais se cultiva a cana. Alerta-se ainda para a degradação
do meio ambiente; o reforço da monocultura e da concentração
das propriedades, em detrimento da agricultura familiar e da
produção de alimentos; a submissão da força de trabalho
a condições desumanas; e a reduzida geração de empregos.
Não é
preciso ser especialista para observar a panacéia atual em
torno ao etanol. Basta viajar pelo interior do estado de São
Paulo para constatar uma nítida e brutal mudança na
paisagem, em espaço curtíssimo de tempo, onde a predominância
das plantações de cana-de-açúcar é absoluta.
Adentrando-se por estradas vicinais, é possível ainda
visualizar alojamentos precários recém construídos, muito
provavelmente para abrigar os novos cortadores. Ademais, vários
noticiários dão conta da elevação do preço da terra
nesse último ano e, não coincidentemente, da febre na
aquisição de terras e usinas destes trópicos por
investidores estrangeiros.
Obviamente,
grandes interesses estão em jogo e muitos lobbies, em ação.
Para que, ao final, quiçá acabe por valer os interesses da
nação, há que se qualificar uma discussão tão
polarizada, destrinchando os argumentos de ambas as partes -
mas tomando-se certamente em consideração que sempre há
aquela que tem sua cadeira cativa nos grandes veículos.
Tamás
Szmrecsányi, professor do Departamento de Política Científica
e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp, uma
voz rara em nossa imprensa, falou longamente ao Correio da
Cidadania sobre o tema.
Nessa
primeira parte de sua entrevista - publicaremos mais duas
partes -, ele avalia as atuais discussões em torno dos
biocombustíveis, a sua eficiência energética e os
argumentos críticos a essa fonte.
Nas próximas
duas partes, Tamás discorre sobre as ponderações dos
defensores dos biocombustíveis, sobre as alternativas à
sua produção e também a respeito da postura do governo e
dos movimentos sociais.
Correio
da Cidadania: Como o senhor avalia a atual discussão
em torno dos biocombustíveis, em especial o etanol, no
Brasil e no mundo?
Tamás
Szmrecsányi: Limitarei minhas respostas ao álcool
(ou etanol, ou biocombustível), um assunto que conheço
melhor. Por não me julgar, por outro lado, suficientemente
entendido em plantas oleaginosas e em biodiesel, prefiro
abster-me de opinar a respeito.
Em primeiro
lugar, no que se refere às discussões em curso, convém
distinguir entre as que são veiculadas pela mídia e as
travadas em círculos acadêmicos e técnicos mais fechados.
Nas primeiras, campeia a desinformação, tanto aqui, quanto
lá fora, geralmente por falta de capacitação dos
jornalistas profissionais, inclusive com relação à
escolha de seus informantes - os quais, muitas vezes, ou
carecem igualmente da necessária qualificação técnica e
científica para tanto, ou são meros porta-vozes dos
lobbies favoráveis aos empresários do setor
sucro-alcooleiro e/ou do grande capital vinculado ao chamado
agronegócio.
Lobbies com
presença e influência também se fazem sentir no âmbito
da comunidade científica e tecnológica. As discussões
desta fora do Brasil me parecem menos suscetíveis a esse
fator e, portanto, mais isentas e com melhor nível do que
as do nosso meio. Aqui, além da desinformação, também há
casos de censura (inclusive por parte dos órgãos de
fomento à pesquisa, estatais e privados), de baixa tolerância
às críticas e a pensamentos divergentes, de tendência à
desqualificação e à marginalização daqueles que têm
opiniões alternativas e independentes.
CC:
O senhor considera os biocombustíveis uma boa opção de
energia para o Brasil?
TS:
Quanto à opção energética, poucos, também aqui,
estabelecem uma distinção, desta vez entre o álcool
hidratado e o álcool anidro.
O uso deste
último como combustível misturado à gasolina numa proporção
de até 25% foi, no passado, e continua sendo até hoje, uma
boa opção energética para o Brasil, país possuidor de
uma ampla agroindústria canavieira e que, até
recentemente, não havia atingido uma relativa auto-suficiência
na produção do petróleo. Este, aliás, continua sendo
importado em parte, o mesmo se dando com o gás natural. A
mistura do álcool anidro à gasolina me parece uma boa prática,
na medida em que poupa divisas através da substituição de
importações atualmente caras.
Essa prática
também é interessante do ponto de vista da própria indústria
sucro-alcooleira, na medida em que ajuda a diminuir os
riscos e os efeitos de uma oferta excessiva de açúcar,
permitindo, inclusive, manter certo controle sobre os preços
deste. Isto se deve ao fato de o álcool poder ser produzido
de duas maneiras: a tradicional, a partir do melaço
residual da fabricação de açúcar (álcool residual); e a
alternativa à produção do mesmo diretamente a partir do
caldo resultante da moagem da cana (álcool direto).
Os
problemas, a meu ver, surgem com a excessiva expansão da
oferta de álcool hidratado, um produto intermediário na
fabricação do álcool anidro (resultante da sua desidratação),
e que, ao contrário deste, não tinha e continua não tendo
um mercado garantido, seja dentro, seja fora do país.
Tentou-se criar, aqui no Brasil, esse mercado através dos
carros a álcool das décadas de 1970 e 1980 – uma experiência,
cujos resultados, em termos de custos, não foram muito
favoráveis. E agora está ocorrendo uma nova tentativa com
os chamados carros Flex, cujos motores são abastecidos
tanto pela gasolina misturada com álcool anidro como pelo
álcool hidratado.
Ainda não
se tem até o momento uma avaliação mais precisa dos
resultados desta experiência, com respeito às dimensões
do mercado interno para o álcool hidratado.
CC:
As críticas aos biocombustíveis voltam-se, em frontal
oposição aos defensores, à 1) degradação do meio
ambiente que será ocasionada pelo cultivo de cana, 2) ao
reforço da monocultura e da concentração das propriedades
em detrimento da agricultura familiar e da produção de
alimentos, 3) à submissão da força de trabalho a condições
desumanas, 4) à reduzida geração de empregos, e 5) aos
ganhos energéticos pouco significativos. Haveria nesses
argumentos alguma espécie de paranóia, “eco-ignorância”,
como dizem os defensores dos biocombustíveis?
TS:
Essas críticas me parecem todas procedentes em termos
gerais, carecendo, porém, de uma avaliação mais precisa
no exame dos diversos casos individuais, em função da qual
uma ou outra podem estar sujeitas a determinadas qualificações.
É preciso, face a essa ressalva, ver mais de perto cada uma
dessas críticas
CC:
Pensando, então, mais detidamente e separadamente, em cada
uma dessas críticas aos biocombustíveis, qual a sua avaliação,
em primeiro lugar, quanto à degradação do meio ambiente
resultante do cultivo da cana?
TS:
A degradação do meio ambiente pela expansão das lavouras
canavieiras tem início com a sua implantação numa área
anteriormente ocupada por outras culturas, pela pecuária
extensiva, ou então inexplorada ou vazia.
No primeiro
caso, tende a ocorrer uma substituição da policultura pela
monocultura; no segundo, dá-se a substituição de uma
atividade extensiva por outra; e, no terceiro caso – por
exemplo, através do desmatamento –, há um
comprometimento, quando não a destruição da
biodiversidade pré-existente.
Como se
trata de cultivos semi-perenes, e não anuais, as lavouras
de cana, se plantados em curva de nível, ajudam a combater
a erosão. Ao mesmo tempo, todavia, o uso de máquinas
durante os tratos culturais e principalmente monoculturais
contribui para a compactação dos solos. Mas os piores
impactos acabam sendo ocasionados pelas queimadas que
anualmente precedem as colheitas manuais e pelo despejo
indiscriminado de vinhaça não tratada.
Esta última
prática envolve dois riscos ambientais ainda
insuficientemente avaliados: o da penetração desse resíduo
altamente poluidor (à razão de dois a três litros para
cada litro de álcool), o que junta agrotóxicos no subsolo,
comprometendo não apenas o lençol freático, mas
aprofundando-se até águas subterrâneas mais profundas –
como o aqüífero de Guarani; e o da salinização dos solos
pela aplicação contínua e excessiva, com a conseqüente
redução da sua fertilidade.
CC:
E quanto à concentração das propriedades fundiária, com
ênfase na monocultura, em detrimento da agricultura
familiar e da produção de alimentos?
TS:
A concentração da propriedade fundiária provocada
pela expansão da monocultura extensiva da cana-de-açúcar
pode ser facilmente comprovada por meio dos Censos Agropecuários
e, na ausência destes, através do Cadastro do Incra
relativo ao ITR (Imposto Territorial Rural).
As origens
dessa tendência remontam ao período colonial; trata-se de
uma recorrência da elevada integração vertical da agroindústria
sucro-alcooleira, uma característica inexistente quer em
outros países produtores de açúcar e de álcool, quer em
outras ocupações agroindustriais do Brasil.
Paralelamente,
em vez de haver uma divisão social do trabalho entre a
agricultura e a indústria, as usinas açucareiras e as
destilarias (anexas ou autônomas) são proprietárias da
maior parte das terras que produzem a matéria-prima dessas
agroindústrias. Na medida em que elas vão se expandindo,
tanto a produção de alimentos como as pequenas e médias
propriedades são eliminadas, com órgãos responsáveis
sendo expulsos da agricultura ou empurrados para mais longe
dos lugares de consumo de seus produtos.
Essa expansão
forçada da fronteira agrícola envolve não apenas grandes
migrações internas, mas também uma rápida e intensa
destruição da biodiversidade, em áreas de cerrado
especialmente.
CC:
Quanto às condições desumanas a que é submetida a
força de trabalho, os próprios noticiários não têm mais
como mascarar essa realidade, não?
TS:
Através do monopólio (sem agricultor, diz-se oligopólio)
da terra, as usinas açucareiras, que possuem e/ou arrendam
milhares de hectares de terras, também adotam o monopsônio
(ou melhor, o oligopsônio) no emprego da força de trabalho
no setor agropecuário nas regiões em que atuam. Elas
empregam muita gente porque ocupam muito espaço, a maior
parte das terras disponíveis, eliminando outras
alternativas de ocupação da mão-de-obra. Nessas condições,
elas têm o poder de impor baixos níveis salariais e/ou péssimas
condições de trabalho, como ocorre nas colheitas manuais
que pagam por produção (e não por horas trabalhadas).
CC:
A geração de empregos é realmente tão reduzida quanto se
alardeia?
TS:
A geração de empregos por uma atividade pode ser e tem
sido grande pelas razões expostas acima. A lavoura
canavieira é a que mais pessoas emprega; trata-se porém de
ocupações temporárias e sazonais, cujas remunerações têm
que ser dimensionadas não pelos meses trabalhados, mas
pelos doze meses do ano. Fazendo o ajuste, tais remunerações
não são muito superiores aos salários mínimos regionais.
Por outro
lado, o grande emprego nem sempre corresponde a uma ampla
ocupação da força de trabalho. Mesmo em termos absolutos,
há outras culturas que ocupam mais gente no Brasil do que a
cana-de-açúcar (algo que pode ser constatado através de
dados dos censos e da PNAD), e fazem isso durante o ano
todo. Assim, as lavouras canavieiras podem estar
desempregando pessoas, em vez de gerarem um maior número de
empregos.
É uma tendência
que vem se agravando pela crescente mecanização dessa
atividade, que, a partir de meados da década de 1990, vem
empregando cada vem menos gente por hectare / ano.
CC:
E os ganhos energéticos, são mesmo pouco significativos,
como analisam os críticos ao biocombustível?
TS:
Os ganhos energéticos da agroindústria canavieira são
atribuíveis à combustão derivada da queima do bagaço no
processamento industrial da cana e sua transformação em açúcar
e/ou álcool. Trata-se do excedente de energia transformada
ou de fato transferida à rede distribuidora de energia elétrica.
Isso
representa, sem dúvida, uma vantagem da cana em relação
à beterraba açucareira no que se refere aos custos de
processamento industrial.
Mas esse
ganho tem que ser contraposto aos gastos de energia das máquinas
e caminhões usados no cultivo e na colheita da cana, e também
aos gastos do processamento industrial, no transporte do
produto muitas vezes a longas distâncias. Este último
problema pode ser solucionado através de maior racionalização
da produção sucro-alcooleira e através da substituição
dos caminhões por dutos, por ferrovias ou barcaças
fluviais.
|